domingo, 19 de abril de 2026

.tu.

 

.tu.

Tu.

apenas tu.

duas letras
que cabem na ponta da língua
e incendiam o quarto inteiro
o corpo inteiro
tu de pé
de lado
não importa
cada detalhe teu
a renda 
a pele
o pingente
o bruços
tu
antes de qualquer toque
o desejo que não pede licença
tu de frente
dizendo meu nome
como quem prova uma fruta
antes de morder
sem mais
tu com a calcinha
no chão
e nada mais
o minimalismo do teu nu
tu rindo
depois do orgasmo
aquele riso
de quem sobreviveu
ao próprio corpo
ao próprio devaneio
profano
tu de manhã
despenteada
com marcas
[sim com as marcas
que gosta
de posse e entrega
submissa
vadia
depósito de porra]
ainda mais nua
tu virando
o rosto para o lado na hora H
essa sem vergonha que excita
minha mão
no teu cabelo
te guiando
sem dizer uma palavra
tu gemendo
baixo
como quem reza
numa igreja vazia
tu de quatro
de bruços
de lado
de frente
[tu em todas as posições
da palavra "casa"]
tu depois do sexo
transa
trepada
gozada
foda
amor
com o suor secando na pele
dizendo: "de novo"
quero de novo
deixa [tu]a marca.

Tu.

apenas tu.

o resto é paisagem.

pode ser que no fim da poesia
eu tenha gozado
com as palavras.

terça-feira, 14 de abril de 2026

 .me despe.


tira minha pele de lobo
com os dentes
não deixe pelo, sobre pelo
arranca pétala por pétala
até que meu caule
seja só nervo exposto
me usa
como a lua usa a maré
para invadir a terra
como a noite usa o escuro
para mostrar as estrelas
a lua
me abusa
mas me abusa com cuidado
me quebra no limite
onde o prazer vira grito
e o grito vire teu nome
quero sentir tua saliva
no lugar mais fundo
onde nunca ninguém lambeu
quero teu cheiro
misturado ao meu medo de ser pouco
me vira do avesso
faz do meu uivo
um gemido que não reconheço
faz da minha flor
um campo aberto
onde você planta tua fome
se eu tremer
não pare
se eu pedir pra parar
pergunte com os olhos
se é verdade
me despe inteiro
me usa
me abusa
mas depois
me enrola no teu peito
e me chama de casa
abrigo
porque só quem me rasga
sabe me costurar
só quem me viola[abusa]
sabe o jeito manso
de me florir de novo.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

.pensando: teu corpo nu.


.pensando: teu corpo nu.

meus pensamentos
não têm pudor
teu corpo nu
mora neles sem aluguel
acordo e já está deitada
ao meu lado
[mas és só
memória da pele]
teu corpo nu
desfila pela casa
na minha mente
em horário comercial
no meio da rua
lembro da curva dos teus...
e preciso parar
meus pensamentos
te tocam onde minhas mãos
não alcançam ainda
aparece de costas
a nuca exposta
os ombros
penso na tua buceta
com os olhos fechado
que só abro com a língua
meus pensamentos
são devassos com licença poética
[entram em ti sem bater]
a virilha
os seios
monte Vênus
a tua boca
cada detalhe gruda
não consigo pensar
em imposto
política
futebol
em prazo
em nada
só na tua pele nua
meus pensamentos
te despem mais vezes
do que os meus dedos
teu corpo nu
é o único altar onde
eu rezo de olhos bem abertos.

sábado, 11 de abril de 2026

.olhos de desejos.

teus olhos me comiam
antes da boca
antes das mãos
antes de qualquer toque
eu me afundava neles
como quem se afoga de propósito
porque no fundo era teu prazer
teus olhos negro
molhado que brilha
dois jabuticaba
neles transbordava
uma fome que não pedia licença
só queria carne
poesia?
nenhuma
tu querias fuder
feito louca
devassa
sem rédea
teu olhar me pedia
“vem e fode comigo”
e eu fui
tu na cama
teu cio
tu nua
tu não querias verso
querias meu corpo inteiro
tremendo no teu
pelado contigo
a lua
envergonhada
aprendeu que há prazeres
que não cabem em poema.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

.meu pau.


meu pau latejando
é um animal acordado
dentro da calça
cego, quente, louco
a veia na base
pulsa como um pequeno sino
que só tu escuta
encosto em ti
e ele sobe sozinho
[memória viva
carne viva]
tua mão descendo
pelo meu corpo
encontra cabo de guerra
meu pau latejando
contra tua coxa fechada
a cabeça preta
brilha como uma uva
molhada de orvalho
cada batida...
tua língua demora
na fenda da cabecinha
o ar fica doce
dentro da tua boca
a mão que aperta
a base para não gozar
tu me domína
sou frágil
depois do leite
na tua boca
ele ainda lateja sozinho
como um coração bobo
meu pau latejando
é só um fio de carne
amarrado em ti.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

terça-feira, 7 de abril de 2026

.teu corpo.

 .teu corpo.

teu corpo
ponto de partida
de tudo
não é um lugar
é todos
teu corpo me desaprende
o que eu sabia sobre fome
agora só quero ele
teu corpo é morada
casa
onde tudo habita
coragem, medo
ousadia, desejo
movimento
cada curva tua
é uma pergunta que minha boca
demora a entender
[por isso te procura
te lambendo
te chupando]
teu corpo
é uma frase aberta
que eu leio com a língua/dedos
não há nada escondido
para o que descubro
cada vez que te toco
teu corpo
é o extraordinário
o lampejo do meu dia
a fruta que mata minha fome
a entrega
o gozo que desaba
e quando eu disser "teu corpo"
saiba que estou dizendo
também "tua alma".

.povoada.

.povoada. 

palavra densa
que carrega multidão
teu corpo
que habita
povoada
desejos
mãos
bocas
lampejos
GATILHOS
traumas
e eu?
de mim
não sou um
sou muitos dentro de ti
tua pele tem
vestígios de cada toque
que já te dei e darei
povoada de línguas
de dedos
de gozos esquecidos
que ainda latejam
tuas estranhas é uma praça
onde meus desejos desfilam
em procissão profana
povoada de silêncios
que só eu sei interpretar
gemer sem som
entre tuas coxas
um território povoado
de minhas insanidades[satisfação]
povoada de mim
mesmo quando estou longe
não desapego
teu corpo é uma cidade
que eu ando inteira
toda dia
toda noite
faça chuva
faça lua.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

.te fodo.

.te fodo.

te fodo
como uma puta
uma vadia
a palavra atravessa
o ar como um chicote
que não fere
desperta
[é elogio
que não tem medo
que não teme a opinião
do outro]
porque puta
deixa de ser ofensa
e se faz convite
e você quer ser
essa que se entrega
sem resalvas
essa que pede
como quem manda
como quem sabe
que o poder de se dar
é o único poder
que nunca se perde
teu corpo se arqueia
sob o meu pau
que te guia
te ajeita
te abre
como quem abre
um fruto maduro
sabendo que o mel
vai escorrer
eu te fodo
com esses nomes
com essa permissão
que é também um pedido
sabe que é meu desejo
que se disfarça de fome
te fodo
e cada estocada
é uma frase
nesta língua que inventamos
onde palavras ásperas
se fazem carícia
e em ti isso se faz sagrado
tuas mãos se abrem
sobre o colchão
não seguras nada
[só meu corpo no teu]
não te apoia
e essa entrega total
é o que desarma
mais do que qualquer coisa
com essa coragem
de despir não só o corpo
mas também os nomes
que te dou
no calor do nosso fogo
te fodo
como puta vadia
repito
as palavras agora
é um mantra
que nos conduz
para um lugar
onde não há pecado
onde não há julgamento
onde há apenas
o que fazemos
e a verdade
de que desejamos
e precisa apenas
deste sim
que permitimos
um ao outro
quando eu te pergunto
com os olhos
se podes ir mais fundo
e tu me respondes
com os quadris
que se erguem
para me encontrar
e tuas pernas
que puxam meus ombros
te fodo
e te chamo vadia
puta
minha cadela
safada
e cada nome
que coloco dentro
não para de te prender
e sabe que é vista
que é desejada
que é inteira
mesmo quando te partes
em pedaços de prazer
e tu sorrir
porque sabe
que se entregou
sem medo
e a mulher inteira
que escolheu
em liberdade
ser possuída
e não tem contradição
não tem vergonha
do que fizemos
um encontro
entre dois corpos
que se permitiram
ser tudo o que são
sem máscaras
sem pudor
sem nada além
deste desejo
por ser tão cru
que se faz sagrado
gozamos loucamente.